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sábado, 27 de agosto de 2011

Muito antes do 14 Bis

             Antes de iniciar minha narrativa, devo dizer que o sonho de voar sempre encantou o homem e o primeiro a se arriscar em tamanho desatino foi Ícaro, lá na Grécia Antiga. Devo esclarecer que no caso especifico desse moço, não se tratava simplesmente de um sonho e sim de um desejo desesperado de salvar sua pele.
Na ânsia de se ver livre da tirania de Minos e acompanhando a cabeça maluca de Dédalo, um pai sem a menor responsabilidade, ele tentou fugir do labirinto de Creta, voando sobre o Mar Egeu.
Era lógico que com aquele jeitão todo espalhafatoso de Ícaro, um par de asas feito com penas de gaivotas e tendo cera de abelha como adesivo, não iria dar certo.
E não deu mesmo!
Veja como sucedeu a tragédia:
Devidamente alado, o desmiolado Ícaro subiu em um rochedo e auxiliado pelo pai nonsense que possuía, se atirou no espaço para minutos depois, mergulhar com asas e tudo, nas profundezas do mar. Naufragando, dessa forma, o primeiro sonho de voar.
Bom, após explicar sucintamente, como Ícaro foi pro saco, deixemos a mitologia de lado e vamos à nossa história de hoje:
Quis o destino, esse especialista em nos pregar peças, que certa feita, estando eu em transito pelos Grotões de Minas, como dizia o Mestre Guimarães, meu veículo tivesse um problema de embreagem em um lugarzinho esquecido por Deus, que atendia pelo nome de Pedra Bonita do Zelão.
Enquanto esperava o mecânico trocar a mal fadada embreagem, me detive à sombra de uma árvore e ali entre um canto de pássaro e outro, fiquei apreciando o cenário bucólico que serviria de pano de fundo para a história que vamos apreciar. História essa, que na realidade, não é minha e sim de um velhinho que se aconchegou e ao frescor da sombra, contou o seguinte:

Pedra Bonita do Zelão, nem sempre teve esse pomposo nome. No apagar das luzes do século dezenove, quando a Princesa Isabel dava redação final à lei da libertação, Santos Dumont ainda se via envolto em cândidos cueiros e os irmãos Orville e Wilbur Wright ainda acreditavam no Abominável Homem das Neves, Zelão já fazia e acontecia nessa terra de meu Deus.
Zelão era inventor. E inventor dos bons! Dentre outras coisas, ele encanava água com bambu, colocava cabo em caçarola, tirava vazamento em pinico. Enfim, era pau pra toda obra. 
Apenas para ilustrar a historia, quero destacar um de seus inventos mais importantes foi o carrinho de direção. Quem já foi criança em cidade do interior, sabe muito bem do que estou falando e para quem, até a presente data, desconhecia o autor desse entretenimento tão cobiçado em tempos idos, está esclarecido: O inventor do primeiro carrinho dessa modalidade foi Zelão.
É claro que depois de algumas décadas os brinquedos tomaram outras formas, foram se modernizando e ai então apareceram os carinhos de rolimãs, as bicicletas e tantos outros, com engenharias mais avançadas.
 E de invento em invento, Zelão cada vez mais criativo, foi apurando sua técnica até que um dia sonhou que poderia voar e nas asas dessa ilusão, partiu para a luta na montagem de sua engenhoca.
A princípio, Zelão trabalhava em segredo. As pessoas sempre curiosas queriam saber do que se tratava o novo invento. Ele sempre cauteloso, dizia: - É segredo, na hora certa vocês saberão.
Ninguém em Pedra Bonita podia admitir, nem em sonho, que Zelão estivesse com a idéia estapafúrdia de voar. Mesmo porque, até então, isso era privilégio exclusivo de passarinho.
Mas, ele estava sim com idéia de voar.
E voou!
Foram seis meses de trabalho duro: Durante o dia, Zelão cuidava de seus afazeres rentáveis para se sustentar e parte da noite, era dedicada à construção de sua geringonça voadora.
Finalmente, quando tudo ficou pronto. Era chegado o momento do povo de Pedra Bonita saber a finalidade de tal engenhoca: Zelão contou pra um, contou pra outro, em questão de horas, todos os habitantes do lugar tinham conhecimento da loucura irreversível do rapaz.
- Como pode uma pessoa voar? Perguntava um.
- Ele não esta batendo bem! Exclamava outro.
Uma velhinha rezadeira, de terço em punho, comentava com suas amiguinhas de infância: - Eu sempre disse que ele tinha um parafuso a menos e ninguém acreditava em mim, agora ai está a prova: Ele está pensando que é passarinho!
Enquanto os comentários, acerca da insanidade de Zelão se alastravam, alheio a tudo, ele preparava-se para seu primeiro vôo em céus de Pedra Bonita.
Quando faltava um dia para o grande acontecimento, Zelão deu os últimos ajustes em seu equipamento de vôo: Foram conferidos ângulos e curvaturas das asas, foram feito testes de aerodinâmica, ajuste e fixação da lona de sustentação sobre a forquilha de aroeira que serviria de base para a nave e por fim, o indispensável teste de resistência.
Tudo ajustado e aprovado.
O local escolhido para decolagem foi a pedra que dava nome ao lugar, ou seja: Pedra Bonita. Um rochedo constituído de um bloco de granito gigante com uns duzentos metros de altura aproximadamente e que ficava plantado bem no centro da fazenda do Coronel Dilermano Dias.
Solicitada a autorização para uso do referido rochedo para servir de plataforma de decolagem, o coronel não se opôs, porém, uma condição foi imposta a Zelão: Ele seria responsável por quaisquer danos, que por ventura, viessem ocorrer na fazenda.
Ajustada a cláusula única do contrato verbal, estabelecido entre o inventor e o coronel, nosso herói subiu no rochedo com sua geringonça voadora numa manhã ensolarada de domingo. Os habitantes de Pedra Bonita, não tiravam os olhos do céu, todos queriam ver o primeiro homem voador da história da humanidade.
E viram!
Zelão tomou considerável distância, saiu em desabalada carreira e se soltou no espaço feito andorinha e por ali ficou sobrevoando Pedra Bonita sob os olhares perplexos de seus habitantes.
Mas como a lei de Newton é infalível e tudo que sobe tem de descer,  já dizia o poeta Raul, trinta minutos após a decolagem, era chegada a hora da aterrissagem e ai aconteceu o inesperado: Ao aproximar-se do solo em meio a uma pastagem, um touro reprodutor da fazenda do coronel, arrematado a preço de outro em exposição de renome nacional, que trocava olhares apaixonados com uma vaca holandesa à beira de um abismo, assustou-se com a geringonça voadora e despencou precipício abaixo de não sobrar nem berro do marruá. Quanto à vaquinha leiteira, esta escapou do abismo, mas levou uma ponta da asa pelas costelas de ficar andando atravessada durante duas semanas e meia. Traumatizada,  nunca mais produziu um litro de leite sequer.
E pra finalizar a desventura de Zelão, seu equipamento desgovernado, após atropelar a vaquinha, fez pouso forçado no telhado da fazenda do coronel quebrando algumas centenas de telhas e por pouco não levou tudo abaixo.
Ao tocar os pés em terra firme, Zelão foi logo interpelado pelo coronel sobre a morte do reprodutor e demais desatinos.
Resumindo, Zelão passou o resto da vida trabalhando para pagar a divida e não conseguiu. Pois, morreu com mais de oitenta anos de idade e ainda, devendo metade do touro.
Em sua homenagem, o lugar que se chamava apenas Pedra Bonita, passou a se chamar Pedra Bonita do Zelão.

Terminada a história, o mecânico sinalizou que havia concluído o conserto do veículo. Despedi-me do bom velhinho e parti, pensando em tudo que ele havia dito.
Há muito que o mundo questiona quem, realmente, desafiou a gravidade e voou pela primeira vez: Santos Dumont ou os Irmãos Wright?
Lá em Pedra Bonita do Zelão, ninguém tem dúvidas.
E nem eu!

                                                                            27/08/2011

domingo, 7 de agosto de 2011

O moço que veio de longe

Ele veio de longe em lombo de um alazão, trazia apetrechos pessoais e um pequeno baú de contra peso. Após romper a porteira da Fazenda do Engenho Velho, foi bater à porta da sede, onde uma guria, como se diz no sul, contando com uns quinze anos, nada mais que isso, o atendeu.
- Quero falar com proprietário!
Manifestou o recém chegado.
- Ele não está!
Retrucou a guria.
- Não tenho pressa, eu espero!
Com um sorriso faceiro, a mocinha se afastou pelos corredores do casarão e o viajante caminhou sem pressa com sua montaria até a sombra de uma árvore, onde sentou-se e ficou a espera do proprietário.
Não demorou muito, Coronel Rossi adentrou o pátio da fazenda e mesmo antes de qualquer apresentação, foi logo perguntando:
- Em que posso servir o jovem viajante?
- Careço de pouso por uma noite. Amanhã, bem cedo, sigo viagem para o sul.
Respondeu o forasteiro.
- Se vem em missão de paz, pode desencilhar o cavalo.
Autorizou o Coronel.
Sem mais esperar, Cassiano desfez-se da montaria, jogou água no lombo do alazão e após soltá-lo no pasto, caminhou até a varanda da fazenda, sempre carregando o  inseparável baú e ali ficou de papo com o Coronel.
O proprietário da Fazenda do Engenho Velho gostou do forasteiro e pelo olhar, sua filha Marina, muito mais ainda. Perguntado sobre o que continha naquele pequeno baú, Cassiano respondeu:
- Tudo que herdei de meu pai está dentro desse baú, no entanto, atendendo a um pedido seu, somente posso abri-lo quando não tiver mais esperança de nada na vida. Até o dia de hoje, não cheguei a tal ponto!
Diante da explicação pormenorizada, ninguém mais falou no baú e o pouso que deveria durar apenas uma noite se alongou por mais tempo e ao final de dois anos Cassiano já havia se casado com Mariana e os dois aguardavam ansiosos a chegada do primeiro neto do Coronel.
Mais alguns anos, Coronel Rossi saudoso de sua esposa que morrera quando do nascimento de Mariana, cansou-se da vida e embarcou nas asas de um morcego que atravessou seu caminho e foi-se para junto da falecida.
Quis o destino que Cassiano, que na verdade buscava apenas pouso para uma noite em terras da Engenho Velho, acabou se casando com Mariana e por conseguinte abocanhando todo império do Coronel Rossi.
Coronel morto, coronel posto. Não demorou muito e Cassiano virou Coronel Cassiano e da varanda da sede passou a comandar todas as atividades da Fazenda do Engenho Velho e a articular a política local.
Os dois filhos do coronel, fruto de sua união com Mariana, escolheram caminhos diferentes: O mais velho viajou para capital e formou-se advogado, o mais novo não arredava pé da fazenda, não tinha nenhum apreço pelo trabalho e quase sempre era visto acariciando o baú que o pai herdara e que despertava grande curiosidade a todos os freqüentadores da fazenda.
Quando tudo parecia tranqüilo, a morte repentina de Mariana abalou as estruturas da fazenda, levando o coronel a baixar guarda e deixar a Engenho Velho, exclusivamente, em mãos de empregados. Era comum vê-lo em sua rede olhando para o teto e falando às aranhas, até que certo dia, no embalo do vai e vem do balanço ele adormeceu e acordou nos braços da eternidade, provido de um par de asas brancas.
O filho mais velho, já com a vida encaminhada na capital, desistiu da herança em favor do irmão. O irmão mais novo, porém, desejoso de desvendar o mistério do baú, não demorou dois anos, já havia perdido tudo que herdara e finalmente era chegada a tão esperada hora.
Aberto o baú, tudo que continha em seu interior era um pequeno retângulo de granito bruto com a seguinte frase: O homem somente está derrotado, quando perde a coragem de lutar.
Guiado pela frase do baú, o filho do coronel foi à luta e a última notícia que se teve, dava conta de que ele pintava pardais de verde e os vendiam como se fossem periquitos, em uma feira clandestina de beira de estrada.
Quem vive na ilusão de encontrar um pote de ouro no fim do arco íris, está fadado a nunca realizar seu sonho 
    

07/08/2011


segunda-feira, 18 de julho de 2011

Globetrotters tupiniquins

            Essa é uma edição especial, costumo fazer um conto por mês, mesmo porque escrevo um monte de insanidades que me vem à cabeça a cada dia e nos intervalos entre um despautério e outro, por motivos óbvios, ainda trabalho. No entanto, resolvi falar sobre um assunto atual, já que ainda estamos contabilizando as cicatrizes de nossa derrota para os paraguaios, nas quartas de final da Copa América, no último domingo (17/07/2011).
Alguém mais questionador poderia dizer: - Mas isso não é um conto! Está certo quem assim pensar. Realmente, isso não é um conto se pensarmos em termos de gêneros literários, porém, esse não conto volta a ser um conto a partir do momento em que conto (verbo) com sua generosa visita para a leitura desse desabafo. É... Talvez, seja esse o nome mais adequado para esse pequeno texto: D-e-s-a-b-a-f-o ! ! !   
Há quase um século, nos Estados Unidos, país onde se pratica o melhor basketball do mundo, surgiram alguns “atletas” detentores de grandes habilidades com a bola nas mãos. Acontece que esses fantásticos malabaristas e seus malabarismos não se encaixavam nas regras do basketball praticado na liga Americana. O que fizeram então? O óbvio. Montaram uma equipe de exibição e saíram pelo mundo encantando as pessoas com suas mirabolantes jogadas.
            Harlem Globetrotters à parte, sou brasileiro e admirador do futebol arte me sentindo, então, no direito de fazer uma sugestão à equipe brasileira que disputou a quadragésima terceira Copa América de Futebol: Por que, a exemplo dos americanos, não se monta uma equipe de firulas futebolísticas e sai pelo mundo fazendo exibições?
            É difícil imaginar que os jogadores do país penta campeão do mundo, tido e havido como o maior celeiro de craques de todos os tempos, em noventa minutos regulamentares, mais trinta minutos de prorrogação, mais alguns minutos de acréscimos e após a cobrança de quatro penalidades máximas, não conseguiram fazer um gol sequer. O que se vê, na atual seleção brasileira, são jogadores se comparando a atletas do passado, a atletas de outros países e assim por diante. Cada um mais vaidoso que o outro. Jogar bola mesmo que é bom, nem pensar.
            Assistimos uma Copa América como se estivéssemos em um circo: Jogadas de efeito e sem objetividade a todo o momento, sob a batuta de um técnico com jeito de boa gente e de capacidade duvidosa e pior ainda, aclamados pela mídia e por nós, ingênuos brasileiros que sofremos da cegueira provocada pela paixão que cultuamos por esse esporte, que a cada dia mais se transforma em verdadeira fabrica de milionários (nada contra altos salários). É certo também, que nem todos os jogadores fazem parte desse fiasco, se salva uma meia dúzia.
            Pelé e Garrincha começaram a jogar juntos em 1958, de cara ganharam uma copa do mundo, em 1962, ganharam mais uma copa. Em suma, os dois jogaram juntos quarenta jogos defendendo a seleção brasileira, ganharam trinta e cinco e empataram cinco. Precisa falar mais alguma coisa? Há parâmetros para comparações?
            Nossos jogadores, não sentem mais orgulho em vestir as cores do Brasil, hoje os interesses estão voltados para os milhões de euros advindos das marcas famosas que os patrocinam. A competição que eles disputam tem um sentido econômico e não esportivo, a competição é para saber quem ganha mais, enquanto nós torcedores que financiamos esse show, estamos sempre perdendo e de goleada.
           
A continuar como está em 2014 seremos um fiasco dentro de nosso próprio país. E quem vai pagar a conta? Outra vez, nós brasileiros, é claro. Penso até que poderemos ser campeões novamente, só que para isso acontecer, a cada competição, a FIFA - International Federation of Association Football, terá que instituir dois troféus: Um para o campeão de futebol propriamente dito e outro troféu para os destaques em firulas. Nesse segundo quesito, o Brasil será sempre imbatível.   
            Seria tolice imaginar que temos que ganhar tudo sempre, o problema em tese, é como estamos perdendo: Sem luta, sem sangue, sem suor...             


                                                                                                                                         18/07/2011

domingo, 3 de julho de 2011

O segredo das estrelas

A alma itinerante de uma família que tinha sonhos providos de asas de beija flor, fez com que fossemos ancorar, por um curto período de nossas vidas, na pacata e acolhedora Campina do Leste. Uma pequena casa, sem qualquer ostentação de luxo ou conforto, nos acolheu durante o tempo em que permanecemos por aquelas paragens.
A residência ficava na Avenida das Palmeiras, que começava no centro da cidade e findava na Praça dos Bem-te-vis, já na saída da cidade em direção à capital do estado.
Na Praça dos Bem-te-vis, erguia-se imponente a igreja de São Sebastião, ostentando torre elevada e uma cruz em seu ponto mais alto, símbolo da fé cristã e pouso preferido das andorinhas migratórias. Nas proximidades da igreja ficava o estabelecimento de meu tio Bartholomeu: Um comércio de secos e molhados de pequenas dimensões que vendia de um tudo, de agulha a lingüiça defumada, passando por pinicos esmaltados, bules e chaleiras de bico, podiam ser encontrados na gloriosa Mercearia do Barthô.
Eu, andarilho da educação, que vivia migrando de um colégio para outro, me matriculei no Instituto Educacional Castro Alves. Estudava na parte da manhã e na parte da tarde ficava dando sopa nas cercanias da mercearia pegando pequenos bicos, que ao final do dia, quando meu tio estava de bom humor, me rendia alguns trocados. Nada significativo, mas o suficiente para me garantir uma merenda descente, no dia seguinte.
Tudo que falei até aqui, nada mais é do que a armação de um pequeno cenário para contar a história de Seu Clemente. Um senhor de cabelos grisalhos, passos lentos e que dizia contar com mais de cem anos de idade. Tinha uma particularidade: Fazia uso, de forma impecável, das palavras no plural, todavia, fora de contexto.
Todos os dias, religiosamente, Seu Clemente adentrava a mercearia de meu tio, aproximava-se do balcão e fazia o mesmo pedido: - Seu Barthô, me vê um ovos! 
Tio Barthô, como que admirando a forma elegante e incorreta de falar de seu mais ilustre e assíduo freguês, embrulhava o ovo e dizia: - Aqui está o seu ovos, Seu Clemente!
Quando a tarde caia e as luzes dos postes da praça e da torre da Igreja São Sebastião acendiam, Seu Clemente caminhava até o centro da praça e lá sentado em um banco, ficava contemplando as estrelas. Aos poucos as crianças iam chegando, aproximando, até que alguém pedia: - Seu Clemente, o senhor conta uma história pra nós?
Calmamente, Seu Clemente dirigia o olhar para o autor do pedido e respondia com toda calma do mundo: - Conto sim!
Antes de iniciar a história, no entanto, ele olhava mais uma vez para o céu e perguntava para si mesmo, em voz compassada: - Qual será o segredo das estrelas? Em seguida, sentenciava: - Um dia, todos nós saberemos!
Dito isto, Seu Clemente que se dizia filho de antigos escravos, dava inicio a mais uma de suas fantásticas histórias que, invariavelmente, iniciava-se assim: - Era tempo dos escravos...
Apesar do inicio de cada história prenunciar tristeza, as histórias de Seu Clemente eram sempre recheadas de sonhos e fantasias, se ele conhecia histórias tristes, estas deveriam estar enclausuradas em um baú trancado a sete chaves, bem no fundo de sua alma.
Certa tarde, assim como fazia todos os dias, Seu Clemente aproximou-se do balcão da mercearia e perguntou: - Seu Barthô, tem pães?
Meu tio, implacável, respondeu de primeira: - Nães!
Este foi o último diálogo que presenciei entre Seu Clemente e Tio Barthô. No dia seguinte, bem cedo, as asas do beija flor se agitaram, levantamos ancora e partimos em busca de novos horizontes e Seu Clemente permaneceu sentado no banco da praça, contando suas histórias maravilhosas e tentando desvendar o segredo das estrelas.




02/07/2011

domingo, 29 de maio de 2011

Guimarães Rosa me enganou


Singela homenagem a João Guimarães Rosa, um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos.


O mundo do Século XXI parece caminhar a passos largos rumo ao ápice de seu desenvolvimento e atrelado a este um consumismo exacerbado de seus habitantes.
Suponhamos que da noite para o dia, um famoso pesquisador americano descubra que clara de ovos de galinha em sua forma natural é o melhor dos remédios para hidratar a pele e prevenir rugas nos delicados rostos femininos.
Entendo que antes de continuar minha narrativa, devo reafirmar que essa é apenas uma suposição e que não tenho como objetivo causar pânico, por menor que seja, entre a população granjeira, induzindo as galinhas a projetarem aumento em suas posturas, passando a produzir dois ou mais ovos por dia. 
Mesmo que a inépcia dita no segundo parágrafo se tratasse de fato e não somente de uma mera suposição, ainda assim, o mundo cacarejante poderia dormir sono solto, pois as mulheres desse século, jamais ousariam usar um produto oriundo de parte tão sombria, garantindo dessa forma, a preservação dos delicados orifícios galináceos.
 Mas afinal, por que a descoberta do pesquisador americano, mesmo que fosse real, encontraria obstáculos em sua aceitação? Eu fiz a pergunta e eu mesmo respondo: Não daria certo e com um agravante, o referido pesquisador poderia mudar o rumo de sua pesquisa, caso contrário, estava fadado a morrer de fome, pois nos dias de hoje, a eficiência de todo e qualquer produto está diretamente relacionada ao seu valor monetário: Um creme para pele cotado em real tem uma eficiência relativa, o cotado em dólar possui uma eficiência razoável, já o cotado em euro é a solução para todos os problemas femininos no que diz respeito à beleza e assim por diante.
Atrevo-me a enumerar alguns dos períodos de consumismo nonsense, pelos quais atravessei nessa minha caminhada lenda e sensitiva que me traçou o destino:
·        Primeiramente foram as botinhas ortopédicas, lembram-se delas? Filho de bacana que não usasse essa revolução do mundo da estética corporal ia ficar com as perninhas de alicate, ia pisar torto, ia arrastar o chinelo pelo resto de sua vida. Para o fadário de milhões de brasileiros, quis o destino que o grande futebolista Garrincha não usasse tão eficiente mecanismo, possibilitando dessa forma, que o mesmo se transformasse no Pernas Tortas mais famoso do mundo. Você sabia que o Garrincha atuando ao lado de Pelé, jamais perdeu uma partida jogando pela Seleção Brasileira? Pois então, viva as pernas tortas!
·        Os aparelhos dentários, ainda permanecem arraigados em nossa cultura consumista. Fico traumatizado quando recordo que em meu tempo de criança, quem tinha uma simples escovinha de dentes podia se considerar um privilegiado. Não sei como não inventaram ainda, aparelho para corrigir próteses. Aliás, existe coisa mais bonitinha que um dentinho meio torto em um rostinho bonito? Cuidado! Dentes certinhos demais se parecem com dentadura!
·        O computador, de uma hora para outra, se transformou em produto de primeiríssima necessidade nos lares brasileiros. Existem casas que possuem três, quatro aparelhos e as relações familiares andam tão aquecidas, que uma pessoa envia e-mail para a outra, ainda que vivendo sob o mesmo teto.
·        O campeão no mundo do consumismo, sem duvida nenhuma é o celular. Quando visitamos a casa de um parente ou conhecido, precisamos ficar atentos para não sentarmos sobre celulares, pois, eles estão por toda parte. Cada um com um toquezinho mais chato que o outro. Eu já vi celular causar acidentes, atropelamentos, terminar namoros e casamentos. O que seria do mundo de hoje sem o celular?  
Modismos como os citados acima, que a princípio eram praticados apenas nos grandes centros, romperam fronteiras e espalharam-se pelas periferias e hoje habitam os rincões mais remotos. 
Outro dia fui convidado por um amigo a passar um final de semana prolongado em sua cidade natal. Lugarzinho com pouco mais de cinco mil habitantes e que atende pelo sugestivo nome de Monte Belo das Gerais.  
Quando ouvi o nome da cidadezinha, consultei o arquivo de minha memória e nenhuma lembrança de ter ouvido tal nome me ocorreu. Diante dessa minha ignorância geográfica, fiquei imaginando: Deve ser um daqueles grotões descritos em Grande Sertão - Veredas do fabuloso e inesquecível Guimarães Rosa e com esse ingênuo pensamento embarquei rumo à gloriosa e desconhecida Monte Belo das Gerais. Confesso: Esse nome me fascinou!
Durante o trajeto, me perdi em divagações policromáticas. Ia-me sonhando com a paz de um final de semana sem a correria do trânsito, sem o stress do celular tocando a todo instante e sem o funk dos carros de som nas ruas de meu bairro. Enfim, meu weekend iria ser só canto de pássaros, carambolas maduras, lua clara no céu e vestidinhos de chita enfeitando caipirinhas de sorrisos faceiros e bem comportadas.
Engano o meu em projetar fim de semana com tamanha calmaria, pois estarrecido, constatei com meus próprios olhos que isto já não existe nem nas mais longínquas estâncias.
Imagine que ao chegar a Monte Belo das Gerais, antes mesmo de conhecer os familiares de meu amigo, caminhei até um pequeno bar e pedi uma Coca-cola. Grande surpresa foi a minha, ao ouvir a seguinte frase: - Não temos Coca-cola!
 Ingenuamente, pensei: O progresso ainda não chegou por aqui! 
Esqueci a Coca-cola e fui conhecer os familiares de meu amigo, a cidade e seus atrativos. Enquanto caminhava, percebi que em quase sua totalidade, cada habitante do lugar, portava orgulhoso, um celular. Um a coisa, porém, me chamou a atenção: Ninguém usava os aparelhos para se comunicar, apenas os portavam como se os mesmos fossem uma extensão de seus próprios corpos.
Assustado com o fascínio das pessoas pelo aparelhinho falante, em voz baixa, fiz a seguinte observação aos ouvidos de meu amigo: Parece-me que avanço tecnológico da comunicação, se antecipou a Coca-cola em Monte Belo das Gerais!
  Com um sorriso zombeteiro, meu amigo olhou-me de lado e demonstrando que não havia esquecido suas raízes, disse: - Você está enganado, a Coca-cola por se tratar de um refrigerante ultrapassado, não consta mais do mix de consumo da cidade, enquanto que a quantidade de celulares que tanto te assusta tende a crescer a partir do próximo mês, quando se dará a inauguração da torre da empresa de telefonia e as pessoas poderão fazer uso dos mesmos.
De volta à capital, enquanto apreciava a paisagem do cerrado mineiro tão devastado pelos carvoeiros, fiquei imaginando com meus botões: Os grotões de Grande Sertão – Veredas tal qual narrou o Mestre Guimarães já não existem mais e os Riobaldos e Diadorins de hoje, usam aparelhos nos dentes e andam equipados com celulares e MP3. 


29/05/2011

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Em festa de bacana rato não usa crachá


            Centenas de quilômetros separam a fantástica Antares do genial Veríssimo, o pai, da pequena Várzea do Prado, cidadezinha detentora de aquífero termal de grandes proporções e um caráter com necessidades urgentes de lapidação.
O município, desde sempre, vive da exploração do turismo em suas termas medicinais. São pessoas de todos os cantos do país em busca da eterna juventude em águas milagrosas. Busca essa, que poderia ser considerada estéril, se levássemos em conta que as pessoas que acreditam em tal milagre, normalmente, já se encontram em provecto período existencial
Para ser mais direto, devo relatar que foi nesse paraíso de ilusões e céus de diamantes, que um pequeno rato causou um furdunço tão sem propósito para as autoridades locais, que uma semana após o ocorrido, cabeças ainda rolavam dos patamares mais altos da hierarquia de Várzea do Prado, para as imundas e profundas sarjetas.
O sexto mandato consecutivo do presidente do Clube Termal de Várzea do Prado estava completando dois anos e para comemorar a importante data, mais uma grande festa no salão de eventos do clube, havia sido programada. Da sacristia ao gabinete do prefeito, todas as pessoas importantes da cidade, que de certa forma, viviam às expensas das milagrosas termas, receberam convites em letras douradas e de fino acabamento.
Chegado o dia do memorável acontecimento, a cidade não comportava tanta elegância: Ternos caríssimos e de marcas foram sacados dos armários e vestiam os homens de bem da cidade, enquanto vestidos da mais pura seda, enfeitavam as damas da sociedade local, que levavam penduradas em pescoços e braços, jóias do mais alto quilate.
Por volta das dezoito horas os convidados começaram ocupar o salão de eventos e enquanto aguardavam o grande homenageado que presidia o Clube Termal por mais de duas décadas, beliscavam iscas de salmão importado do Alaska e bebericavam o mais puro J & B, em taças do requintado cristal de Murano.
A festa transcorria na mais perfeita ordem como mandam as refinadas etiquetas sociais e a noite de gala prometia ser um sucesso, não fosse um imprevisto de última ordem: Um pequeno rato branco, desses inofensivos ratinhos de laboratório, sem que tenha sido convidado ou portando qualquer tipo de identificação, resolveu penetrar no recinto dando inicio a uma correria sem precedentes.
A verdade, é que assim que foi descoberto entre os convidados, o pequeno roedor fez homens de bigode subir em mesas, derrubar cadeiras, saltitar em passos miudinhos. Fez senhoras respeitosas se descabelarem e perderem a compostura diante da fina flor da cidade, causando constrangimento de elevada proporção.
Enquanto aquele Cerca Lourenço se desenvolvia de vento em popa, o ratinho parecia se divertir em grande estilo, subindo e descendo em saias de madames, em paletós de figurões, em batina de padre, não respeitando ninguém que encontrava pela frente. O certo, é que em poucos minutos o requintado salão de festas estava de pernas para o ar e o travesso ratinho, da mesma forma que veio, partiu. Sem deixar rastros.
Assim que os ânimos pareciam serenados, eis que surge o delegado de revolver em punho e em nome da lei, resolve tirar satisfação com o rato que havia desaparecido misteriosamente em meio à confusão. Furioso com a evasão repentina do meliante, a autoridade máxima de Várzea do Prado, iniciou temporada de caça ao fugitivo, dando tiros para o alto e reiniciando a confusão que só teve fim com a chegada do excelentíssimo presidente do Clube Termal e sua digníssima esposa. 
Após a recomposição dos móveis em seus devidos lugares, os necessários retoques na maquiagem das madames ali presentes e tudo ter voltado a mais perfeita ordem, eis que surge um novo e inesperado incidente. Dona Zuleica, a esposa do presidente do clube, sem que fosse anunciada ou tivesse a palavra franqueada, tomou o microfone em suas mãos e deu inicio ao mais desastroso discurso já proferido em toda a região:
- Quero que todos aqui presentes saibam que nas frias noites, em que meu marido se ausenta do lar e permanece até altas horas da  madrugada em negociatas e tranquibérnias com o meritíssimo senhor juiz de direito aqui presente, quem aquece meu corpo e minha alma é o Perácio.
Ao ouvirem o depoimento de Dona Zuleica, os presentes se entreolharam com ares de perplexidade e cada um parecia se perguntar: - Quem é ele? Quem é esse tal Perácio?
Após alguns segundos de tumular silêncio, em que se podia ouvir o bater de asas de uma pequena mosca, a esposa do presidente do Clube Termal voltou a se manifestar:
- E tem mais, o nosso delegado tão correto e tão valente no cumprimento de seu dever, capaz de sacar uma arma de grosso calibre para um indefeso ratinho de laboratório, não sai da casa de favores de Madame Soraya e sob o pretexto de prestar segurança ao estabelecimento, dorme o sono dos justos em braços macios de suas meretrizes.
Não suportando mais a dor da curiosidade e do constrangimento, o excelentíssimo presidente do Clube Termal, do meio do salão de festas gritou alto e em bom tom, em defesa de sua honra:
- Quero saber agora quem é esse tal Perácio!
Calmamente, Dona Zuleica introduziu a mão direita no bolso de seu elegante vestido e ergueu o pequeno rato que havia transformado a festa em uma verdadeira balburdia e não satisfeita com tudo que já havia dito, voltou a destilar seu ferino veneno:
- E quanto ao senhor prefeito Juthai Barbiroto, eu tenho pra dizer o seguinte:
Quando ela ia dar sequencia ao seu relato, um providencial curto circuito deixou as dependências do clube às escuras, colocando ponto final no depoimento de Dona Zuleica, que em meio a toda aquela escuridão, foi sacada por mãos invisíveis e conduzida para local distante de microfones ou qualquer outro tipo de aparelho amplificador de voz.
E quem imaginou que tudo se resolveu com o simples curto circuito, enganou-se redondamente, pois o devastador discurso, em meio à confusão estabelecida, criou pernas, escapuliu pela porta do salão de eventos, correu pelos corredores, desceu escadas e foi se aninhar bem nos ouvidos da população da cidade.
No dia seguinte, ruas e praças estavam tomadas por manifestantes de toda ordem que exigiam a imediata remoção do excelentíssimo senhor juiz, do delegado de policia e a exoneração do presidente do Clube Termal. O senhor prefeito, que lutava por um segundo mandato nas eleições que se aproximavam, bastou ter seu nome relatado no pernicioso discurso, para despencar nas pesquisas de opinião pública e ainda pode se dar por satisfeito, por não encarar os rigores de um processo de impeachment, perdendo o restinho de mandato que ainda lhe restava.
Quanto a Dona Zuleica, que por um instante encarnou o espírito de Dona Quitéria Campolargo, foi conclamada pelo povo e elevada à condição de candidata a prefeita, tendo como mascote de campanha o glorioso e revolucionário Perácio, que após a eleição, passou a ocupar lugar de destaque na prefeitura e nos corações de todos os varzeapradenses, por seu heróico ato.




                                                                                                                      28/04/2011

sábado, 2 de abril de 2011

A estréia do Circo Shanghai

            Por motivos óbvios que dispensariam maiores explicações, este conto será narrado em primeira pessoa. No entanto, me sinto na obrigação de esclarecer que essa forma de narração não tem como objetivo se criar verossimilhança para o fato e sim narrar de forma fiel uma passagem insólita de minha infância que, ainda hoje, permanece viva em minha memória.
            Meu pai, um italiano inquieto e de belas lembranças, vez por outra tinha umas idéias e resolvia mudar de ares em busca de melhores condições de vida para a família. E nessas andanças fomos parar em um lugarejo distante de tudo, denominado Itaúna do Norte e por lá residimos alguns anos. Itaúna do Norte vivia da produção cafeeira. Afora isso, nada mais produzia.
            Sem grandes atrativos, a vida do povo de Itaúna do Norte resumia-se ao trabalho nas lavouras de café em dias úteis e nos finais de semana, para os adultos era um carteado à sombra de uma árvore qualquer, uma conversa fiada em porta de boteco, uma visita em casa de parentes e nada mais que isso. Já para as crianças, era um joguinho de bola de meia, uma pipa de jornal e algumas outras inocentes brincadeiras que aqui não merecem relato. E por falar em crianças, os casais de Itaúna do Norte levavam o velho e bizarro ditado ao pé da letra “De dia na agricultura e de noite na criatura”. Era raro o casal que não tivesse pra mais de cinco filhos e esse fato aguçava a insensibilidade de um velho sapateiro de uma perna só, conhecido pelo nome nada sugestivo de Argentino, que não se cansava de dizer: - Em Itaúna do Norte tem mais menino do que gente!
            E foi nesse mar de paz e simplicidade que certa ocasião aportou o Gran Circus Teatro Shanghai, que na realidade, não passava de um atestado de pobreza ambulante. A lona toda remendada mais parecia uma colcha de retalhos, onde descobrir a cor original dependia de uma minuciosa e longa pesquisa.
Mas quem disse que as crianças de Itaúna do Norte estavam preocupadas com as precárias condições do circo que acabara de chegar? Nada disso! Tudo que elas queriam era ver o circo em ação com espetáculos de trapézio, mágicas, marionetes, palhaços e o homem que engolia fogo. E para que isso ocorresse, todas queriam doar sua cota de contribuição nos trabalhos.
A sexta-feira foi dedicada à montagem do picadeiro, elevação da lona e montagem das arquibancadas de madeira. Os artistas iriam residir em barracas de lonas instaladas ao lado do circo.  A estréia se daria no dia seguinte.
Mas como manda a tradição mambembe, não existe espetáculo se o palhaço devidamente paramentado, não sair pelas ruas acompanhado de uma multidão de crianças, fazendo chamadas para o referido show. E por esse motivo, no sábado à tarde, Fala Mansa, o palhaço da companhia, percorreu as ruas de Itaúna do Norte cantando e as crianças em coro respondendo:

Hoje tem, hoje tem?
Tem sim senhor!
Hoje tem espetáculo?           
Tem sim senhor!
Hoje tem marmelada?
Tem sim senhor!
E o palhaço o que é?
Ladrão de mulher!

            Terminado o ritual, Fala Mansa com uma pasta branca, fez uma cruz na testa de cada criança. Essa marca representava o passaporte para que as crianças pudessem assistir ao espetáculo gratuitamente.
            As crianças que acompanharam o palhaço já estavam se dispersando quando o mágico do circo, com um vidrinho na mão, me chamou e mostrando-me uma nota de cinco cruzeiros, disse:
- Eu te dou essa nota se você me conseguir este vidrinho cheio de leite de mulher.
Por um instante hesitei em aceitar a estranha oferta, mas o olho grande no dinheiro me deu ânimo e perguntei:
Para que você quer leite de mulher?
E ele prontamente respondeu-me:
- Para colocar nos olhos, estou com conjuntivite!
Pensei com meus botões:
Que mal há em conseguir o leite para esse moço doente dos olhos?
E assim pensando, sai em disparada a cata da inusitada encomenda. Perambulei por uma, duas, três casas onde havia mulheres amamentando e nada consegui, todas deram uma desculpa mais esfarrapada que a outra, não se sensibilizando com meus argumentos. Quando já estava quase desistindo da empreitada, tive uma idéia magnífica: Fui até a casa de Seu Armando Cruz e lá, finalmente, consegui o leite.    
De volta ao circo, entreguei o produto, passei a mão no dinheiro e sai em direção à minha casa. Estava rico, jamais em toda minha vida, tinha colocado tanto dinheiro em minhas mãos.
Maldito dinheiro! Pois, assim que coloquei os pés dentro de casa e passaram-se alguns minutos, chega o delegado acompanhado de seu cachorro policial que carregava um cincerro no pescoço e o esposo da primeira mulher onde eu havia solicitado o vidrinho de leite. Além de não ter me servido a mulher ainda fez reclamação com o esposo, assim que esse chegou do trabalho.
Enquanto o delegado conversava com meu pai e o esposo agravado, revestido da inocência de meus dez anos de idade, fiquei pensando: Vou perder o dinheiro, não vou assistir ao espetáculo de estréia e ainda por cima, vou levar um corretivo de dimensões elevadas e duradouras lembranças.
Não passou muito tempo e fui convidado a acompanhar os três adultos até o circo. Tinha como tarefa, apontar o homem que cometeu o grande desatino de solicitar leite de mulher de Itaúna do Norte, transgressão imperdoável para os exemplares esposos do lugar.
Enquanto os três senhores caminhavam à frente, eu e o cachorro do delgado íamos atrás observando a conversa. Confesso que sentia uma inveja enorme daquele animal com aquele cincerro chato no pescoço, pelo menos ele era amigo do delegado, que naquela situação embaraçosa, representava a lei. As batidas do maldito cincerro, soavam em meus ouvidos como se fosse uma voz a repetir: - Você vai se dar muito mal ao final dessa história!
Quando chegamos ao circo seguimos direto para a barraca do mágico que nos recebeu de forma muito elegante e bastaram poucos minutos de sua argumentação mambembe para convencer a todos de que seu pedido nada mais era que a busca da cura de sua enfermidade e para comprovar a eficácia do referido tratamento, mostrou-lhes os olhos praticamente curados. E para finalizar, reforçou o convite para que todos se fizessem presentes ao show de estréia que se daria dentro de algumas horas.
Quando saímos daquele entrevero, o delegado cheio de curiosidade perguntou-me:
- Mas afinal, onde foi mesmo que você conseguiu o leite?
Nesse momento meu coração disparou e fez menção de sair pela boca, mas num esforço sobre natural consegui responder:
Foi na casa de Seu Armando Cruz.
Essa resposta não satisfez e não podia mesmo satisfazer ao delegado e ele mais curioso ainda, voltou a perguntar:
- Como pode ser se a mulher de Seu Armando Cruz faleceu há mais de dois anos?
Mais uma vez com a voz trêmula respondi:
Ele tem uma cabritinha que está amamentando dois filhotes.
Nesse exato momento, os três entreolharam-se fizeram ar de riso e seguiram em frente e eu ao lado do cachorro do cincerro no pescoço, continuei impassível.
Chegada a hora da estréia, praticamente toda a Itaúna do Norte se acotovelava nas diminutas acomodações do circo, inclusive eu, meu pai (que graças à intervenção de uma legião de anjos, a quem recorri naquele momento de aflição, havia perdoado meu deslize) e o delegado. As atrações foram as mais diversas: Trapezistas seminuas que fizeram as beatas rezarem o credo de trás pra frente, a luta mortal das marionetes no eterno conflito entre o bem e o mal, acrobacias mil do palhaço Fala Mansa. E para fechar com chave de ouro a noite de gala, o mágico (aquele do leite, lembram-se?), solicitou um voluntário da platéia para apresentar seu número de magia e como ninguém se dispôs a atendê-lo ele, gentilmente, convidou o delegado que durante a apresentação acabou botando quase uma dúzia de ovos no centro do picadeiro, diante dos olhos estarrecidos da população de Itaúna do Norte.     
 Na manhã seguinte, inconformado com a farta postura que praticara em público, o delegado pediu remoção para localidade ignorada de ninguém ter notícias suas e de seu cachorro com o cincerro no pescoço, em raio de duzentos quilômetros. Mais alguns dias, o circo se foi e meu pai, um italiano de asas soltas e alma mambembe, também nos convidou a partir.
Ao longo de minha vida tenho assistido a milhares de apresentações, mas nenhuma delas me calou tão fundo quanto a “Estréia do Circo Shanghai”, pois, foi nesse dia que percebi que o mundo é um circo gigante, coberto por uma lona das mais diversas cores, onde cada pessoa é um artista que representa seu papel e faz a roda gigante girar. 


02/04/2011



           

segunda-feira, 7 de março de 2011

Vida de santo não é fácil

Não existe melhor lugar no mundo para se criar mitos do que em cidade pequena do interior e Santana do Vale existe para comprovar essa tese:
Conta-se que certa ocasião, apareceu na cidade um certo Seu Nonô com a cabeça cheia de idéias progressistas. O recém-chegado perambulava de cidade em cidade a procura de um bom lugar para se estabelecer no ramo de panificação e como o povo de Santana do Vale, jamais havia desfrutado de tamanho conforto, não mediu esforços para atrair a atenção de Seu Nonô e consequentemente poder degustar um pãozinho quente todas as manhãs.
Devidamente estabelecido com cilindro de madeira e forno à lenha, Seu Nonô se lançou na produção quitandeira. Era pão novinho três vezes ao dia em horários religiosos. 
Vendo que seu negócio crescia de vento em popa, Seu Nonô se aventurou em outras receitas e cada lançamento representava uma novidade para os moradores de Santana, desconhecedores de tais modernismos gastronômicos.
E nessa de lançar mão de novas e antigas receitas, Seu Nonô acabou esbarrando com a fórmula secreta de uma rosca seca muito elogiada por seu avô, no que se referia à dieta para qualquer tipo de convalescência. E não é que Seu Nonô, com seu jeito calmo de falar, acabou por incutir na cabeça do povo do lugar que a tal rosca seca com água doce, tinha poderes terapêuticos.
Por fim, já não existia uma pessoa sequer em toda Santana do Vale e adjacências que não houvesse experimentado da rosca seca de Seu Nonô e com o passar do tempo, a referida já estava até curando doenças de pequeno calibre.
Mas nem só de rosca seca sobrevive o folclore de Santana do Vale e um outro caso muito interessante, contado e recontado na cidade, diz respeito aos seis casamentos de Rita Corrimão.
Segundo contam, quando Rita estava na flor de seus treze anos, adquiriu de um vendedor ambulante uma pequena imagem de Santo Antônio, tido e havido por todos como o santo casamenteiro. Há princípio o santo teve boa vida, colocado em um pequeno oratório recebia orações e as retribuía com pequenos milagres, mas com o passar dos dias sentimentos matrimoniais afloraram-se em Rita e a partir de então o santinho não teve mais sossego. 
   Imagine só que antes de completar quinze anos de idade, Rita inventou de casar-se e nas asas desse sonho o Santo Antônio saiu do conforto de seu oratório e fez sua primeira incursão em caldo efervescente de feijão e por lá ficou durante uns vinte dias mais ou menos, até que surgiu um namorado para sua protegida.
Com namorado debaixo do braço, Rita retornou com seu santinho para o oratório, não sem antes lhe avisar com o dedo em riste: - Cuidado, se ele fugir você volta pra panela de feijão quente de cabeça pra baixo!
Ressabiado com pedreira que havia pegado e com a nova ameaça, o santo passou a olhar Rita com certa desconfiança, mas para sua tranqüilidade o namoro vingou e logo o casamento foi providenciado.
Quando o pobre santo imaginou que havia resolvido seu problema, eis que acontece o inesperado: Antes mesmo do primeiro ano de casamento, o noivo que havia prometido amor eterno a Rita, foi acometido de doença desconhecida e não houve chá de raiz ou rosca seca de Seu Nonô que desse jeito no caso.
Os dias de luto foram breves e lá estava novamente o santinho enfrentando altas temperaturas, dessa vez a tarefa foi mais penosa e ele passou mais de um mês em mergulho rasante em caldo quente. E assim foi no terceiro, no quarto, até chegar ao sexto casamento de Rita. Por fim, o santinho já não podia mais sentir cheiro de vela queimada que coçava a cabeça e preparava-se para mais um pau de formiga em panela de feijão.
Quando Rita enviuvou de seu sexto marido, uma de suas filhas em raro e providencial momento de lucidez, deu fim ao santinho casamenteiro, escondendo-o em lugar seguro.
Desiludida com o desaparecimento do santo e bastante combalida pelo peso da idade, Rita deu pra caducar (verbo muito usado no interior para sintetizar o sofrimento do mal de Alzheimer) e já não falava coisa com coisa. Certo dia, quando lhe foi servida a famosa rosca seca de Seu Nonô com água doce, ela abraçou-se ao referido alimento e ali ficou acariciando a rosca e dizendo: - Que bom, meu Santo Antônio voltou... Meu Santo Antônio voltou!
Quando sua filha pediu-lhe que comesse a rosca seca, Rita retrucou em voz autoritária: - Nunca! Eu jamais teria coragem de comer o meu santinho!
E enquanto discutia com a filha, o trem apitou na curva e Rita embarcou levando nos braços a famosa rosca seca de Seu Nonô, em uma última homenagem ao santo que lhe rendeu seis casamentos.   
     
  

07/03/2011