sábado, 27 de agosto de 2011

Muito antes do 14 Bis

             Antes de iniciar minha narrativa, devo dizer que o sonho de voar sempre encantou o homem e o primeiro a se arriscar em tamanho desatino foi Ícaro, lá na Grécia Antiga. Devo esclarecer que no caso especifico desse moço, não se tratava simplesmente de um sonho e sim de um desejo desesperado de salvar sua pele.
Na ânsia de se ver livre da tirania de Minos e acompanhando a cabeça maluca de Dédalo, um pai sem a menor responsabilidade, ele tentou fugir do labirinto de Creta, voando sobre o Mar Egeu.
Era lógico que com aquele jeitão todo espalhafatoso de Ícaro, um par de asas feito com penas de gaivotas e tendo cera de abelha como adesivo, não iria dar certo.
E não deu mesmo!
Veja como sucedeu a tragédia:
Devidamente alado, o desmiolado Ícaro subiu em um rochedo e auxiliado pelo pai nonsense que possuía, se atirou no espaço para minutos depois, mergulhar com asas e tudo, nas profundezas do mar. Naufragando, dessa forma, o primeiro sonho de voar.
Bom, após explicar sucintamente, como Ícaro foi pro saco, deixemos a mitologia de lado e vamos à nossa história de hoje:
Quis o destino, esse especialista em nos pregar peças, que certa feita, estando eu em transito pelos Grotões de Minas, como dizia o Mestre Guimarães, meu veículo tivesse um problema de embreagem em um lugarzinho esquecido por Deus, que atendia pelo nome de Pedra Bonita do Zelão.
Enquanto esperava o mecânico trocar a mal fadada embreagem, me detive à sombra de uma árvore e ali entre um canto de pássaro e outro, fiquei apreciando o cenário bucólico que serviria de pano de fundo para a história que vamos apreciar. História essa, que na realidade, não é minha e sim de um velhinho que se aconchegou e ao frescor da sombra, contou o seguinte:

Pedra Bonita do Zelão, nem sempre teve esse pomposo nome. No apagar das luzes do século dezenove, quando a Princesa Isabel dava redação final à lei da libertação, Santos Dumont ainda se via envolto em cândidos cueiros e os irmãos Orville e Wilbur Wright ainda acreditavam no Abominável Homem das Neves, Zelão já fazia e acontecia nessa terra de meu Deus.
Zelão era inventor. E inventor dos bons! Dentre outras coisas, ele encanava água com bambu, colocava cabo em caçarola, tirava vazamento em pinico. Enfim, era pau pra toda obra. 
Apenas para ilustrar a historia, quero destacar um de seus inventos mais importantes foi o carrinho de direção. Quem já foi criança em cidade do interior, sabe muito bem do que estou falando e para quem, até a presente data, desconhecia o autor desse entretenimento tão cobiçado em tempos idos, está esclarecido: O inventor do primeiro carrinho dessa modalidade foi Zelão.
É claro que depois de algumas décadas os brinquedos tomaram outras formas, foram se modernizando e ai então apareceram os carinhos de rolimãs, as bicicletas e tantos outros, com engenharias mais avançadas.
 E de invento em invento, Zelão cada vez mais criativo, foi apurando sua técnica até que um dia sonhou que poderia voar e nas asas dessa ilusão, partiu para a luta na montagem de sua engenhoca.
A princípio, Zelão trabalhava em segredo. As pessoas sempre curiosas queriam saber do que se tratava o novo invento. Ele sempre cauteloso, dizia: - É segredo, na hora certa vocês saberão.
Ninguém em Pedra Bonita podia admitir, nem em sonho, que Zelão estivesse com a idéia estapafúrdia de voar. Mesmo porque, até então, isso era privilégio exclusivo de passarinho.
Mas, ele estava sim com idéia de voar.
E voou!
Foram seis meses de trabalho duro: Durante o dia, Zelão cuidava de seus afazeres rentáveis para se sustentar e parte da noite, era dedicada à construção de sua geringonça voadora.
Finalmente, quando tudo ficou pronto. Era chegado o momento do povo de Pedra Bonita saber a finalidade de tal engenhoca: Zelão contou pra um, contou pra outro, em questão de horas, todos os habitantes do lugar tinham conhecimento da loucura irreversível do rapaz.
- Como pode uma pessoa voar? Perguntava um.
- Ele não esta batendo bem! Exclamava outro.
Uma velhinha rezadeira, de terço em punho, comentava com suas amiguinhas de infância: - Eu sempre disse que ele tinha um parafuso a menos e ninguém acreditava em mim, agora ai está a prova: Ele está pensando que é passarinho!
Enquanto os comentários, acerca da insanidade de Zelão se alastravam, alheio a tudo, ele preparava-se para seu primeiro vôo em céus de Pedra Bonita.
Quando faltava um dia para o grande acontecimento, Zelão deu os últimos ajustes em seu equipamento de vôo: Foram conferidos ângulos e curvaturas das asas, foram feito testes de aerodinâmica, ajuste e fixação da lona de sustentação sobre a forquilha de aroeira que serviria de base para a nave e por fim, o indispensável teste de resistência.
Tudo ajustado e aprovado.
O local escolhido para decolagem foi a pedra que dava nome ao lugar, ou seja: Pedra Bonita. Um rochedo constituído de um bloco de granito gigante com uns duzentos metros de altura aproximadamente e que ficava plantado bem no centro da fazenda do Coronel Dilermano Dias.
Solicitada a autorização para uso do referido rochedo para servir de plataforma de decolagem, o coronel não se opôs, porém, uma condição foi imposta a Zelão: Ele seria responsável por quaisquer danos, que por ventura, viessem ocorrer na fazenda.
Ajustada a cláusula única do contrato verbal, estabelecido entre o inventor e o coronel, nosso herói subiu no rochedo com sua geringonça voadora numa manhã ensolarada de domingo. Os habitantes de Pedra Bonita, não tiravam os olhos do céu, todos queriam ver o primeiro homem voador da história da humanidade.
E viram!
Zelão tomou considerável distância, saiu em desabalada carreira e se soltou no espaço feito andorinha e por ali ficou sobrevoando Pedra Bonita sob os olhares perplexos de seus habitantes.
Mas como a lei de Newton é infalível e tudo que sobe tem de descer,  já dizia o poeta Raul, trinta minutos após a decolagem, era chegada a hora da aterrissagem e ai aconteceu o inesperado: Ao aproximar-se do solo em meio a uma pastagem, um touro reprodutor da fazenda do coronel, arrematado a preço de outro em exposição de renome nacional, que trocava olhares apaixonados com uma vaca holandesa à beira de um abismo, assustou-se com a geringonça voadora e despencou precipício abaixo de não sobrar nem berro do marruá. Quanto à vaquinha leiteira, esta escapou do abismo, mas levou uma ponta da asa pelas costelas de ficar andando atravessada durante duas semanas e meia. Traumatizada,  nunca mais produziu um litro de leite sequer.
E pra finalizar a desventura de Zelão, seu equipamento desgovernado, após atropelar a vaquinha, fez pouso forçado no telhado da fazenda do coronel quebrando algumas centenas de telhas e por pouco não levou tudo abaixo.
Ao tocar os pés em terra firme, Zelão foi logo interpelado pelo coronel sobre a morte do reprodutor e demais desatinos.
Resumindo, Zelão passou o resto da vida trabalhando para pagar a divida e não conseguiu. Pois, morreu com mais de oitenta anos de idade e ainda, devendo metade do touro.
Em sua homenagem, o lugar que se chamava apenas Pedra Bonita, passou a se chamar Pedra Bonita do Zelão.

Terminada a história, o mecânico sinalizou que havia concluído o conserto do veículo. Despedi-me do bom velhinho e parti, pensando em tudo que ele havia dito.
Há muito que o mundo questiona quem, realmente, desafiou a gravidade e voou pela primeira vez: Santos Dumont ou os Irmãos Wright?
em Pedra Bonita do Zelão, ninguém tem dúvidas.
E nem eu!

                                                                            27/08/2011

7 comentários:

  1. Toninho, parabéns pelo belo texto que prende a atenção do começo ao fim e aguça a curiosidade parágrafo após parágrafo. Abraços,

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  2. Marcelo Sguassábia28 de agosto de 2011 02:53

    Pois é, Tony.
    Como "Bis" significa réplica, a bem da verdade Zelão foi o inventor do 14 - nome que batizou a primeira geringonça voadora da história. Santos Dumont foi um parasita que roubou a ideia do Zelão - a quem o seu texto finalmente faz justiça!! rsrsrsrsrsrsrsrs...
    Excelente texto, meu amigo. Um grande abraço.

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  3. Foi Santos Dumont!
    já que os Irmãos Wright não tiveram testemunhas!!!
    e claro depois desde texto instigante...
    o Zelão...rs
    Vamos deixar os méritos da aviação por aqui mesmo gente..rs
    Parabéns Toninho!
    Adooreii!!

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  4. Toninho,
    Adorei este conto...
    Continue sua viagem pelo interior de Minas, estes
    grotões tem muitas outras histórias para você revelar prá gente!
    Beijão
    Aninha

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  5. Antonio,

    Parabéns pelo texto vc viajou pra caramba não é atoa que o mundo esta cheio de Zelão.
    Continue assim escrevedo estes belos textos

    por isso que vc e o cara.
    Abraços de seu amigo

    Olinto Ramos,

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  6. Tony, sabe aquela pedra ao seu lado debaixo da árvore onde se acocorou o velhinho contador de histórias? Eu estive lá ouvindo a narrativa. Ele não te disse tudo. Depois que você se foi, após o conserto do seu carango, ficamos conversando. E soube de uma reunião entre o Zelão e Santos Dummont, ainda na puberdade. Depois, dois meses à frente, outra reunião, entre o Zelão e os irmãos Wrigh. Três meses depois o Zelão parou de trabalhar. A dívida dele foi paga em dólares. Será por que causa? O resto da história todo brasilero sabe.
    Abraços.
    Antônio Fonseca

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  7. Obrigado a todos aqueles que visitaram meu Blog e me deram a honra de seus comentários.

    Tony Marques

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